Casa & Mercado
 
 
Legítimo representante da safra de profissionais-artistas, Roberto Candusso aprendeu como ninguém a navegar pela vida.
 
 
Na primeira visita ao escritório do arquiteto Roberto Candusso foi possível sentir um cheiro forte de algum produto químico – claro, ele estava trabalhando em um experimento. “Gosto de testar novos materiais e analisar soluções alternativas”, avisava o italiano de feições fortes e olhar terno, nascido na pequena cidade de Citadella, mas abrasileirado aos seis anos de idade.
Na segunda ocasião, Candusso nos recebeu na sala de reuniões, onde dois quadros emblemáticos definem as maiores paixões de sua vida: o mar (em desenho colorido, ilustrando o arquiteto e familiares velejando) e um grafite com o skyline de São Paulo – obra por ele executada diante de uma estupefata platéia de executivos do ramo imobiliário, em apenas 10 minutos. “Eles queriam que eu apresentasse as fachadas do empreendimento, sem sequer termos discutido outras questões da obra, como a divisão interna dos apartamentos”. Explicou que não poderia oferecer um grand finale da ópera sem ter o libreto, enquanto fazia o esboço do projeto já contextualizado no horizonte, arrancando aplausos. O episódio poderia ser um referencial de sua trajetória, marcada por situações de algum risco, muito humor (a história do início acabou bem para todo mundo, ou quase) e completa dedicação ao trabalho.
O “arquiteto que sabe desenhar” começou a carreira exatamente aí, dominando o grafite num tempo em que não havia computadores. “Gosto de desenho ao vivo, de desenhar mulher pelada, figuras, rostos, mas não é toda hora que dá”, confessa Candusso, que não é adepto dos retoques em seus desenhos, como os obtidos por computação gráfica.
Sua grande e natural vocação artística contou com a atenção da mãe, que o estimulou, ensinando-o a desenhar sobre papel quadriculado. A arquitetura começou por causa de um anúncio no jornal pedindo desenhista de interiores. Quando, no teste, pediram para desenhar uma poltrona, pensou: “Era tudo o que eu queria!”, e a atividade logo se tornou paixão.
 
 
Sua trajetória inclui a passagem por uma empresa de feiras e eventos, para desenhar estandes, mas justo quando seu casamento trazia também a necessidade de melhorar a renda, novamente um anúncio de jornal pedia ‘alguém que desenhasse perspectiva de arquitetura’... Adivinhem? “Nunca havia trabalhado com isso, mas fui lá, fiz um teste e entrei direto”. Nessa empresa, entre um desenho e outro, acabou fazendo alguns projetos executivos, um deles indo parar direto na Gafisa e, assim, iniciando uma carreira, que o levou a fazer o curso superior de arquitetura e a conquistar o mercado imobiliário. .Outra importante experiência para Candusso foi a decoração de interiores – ele trabalhou com Terry Della Stuffa, renomado decorador de São Paulo.
No segundo casamento (o primeiro durou 33 anos), Candusso vive uma fase tranqüila de gestão pessoal. “Se tem uma coisa que posso falar de boca cheia é que não me arrependo de nada do que fiz e não gostaria de refazer nada também”, revela. O arquiteto tem uma paixão mais forte: sua relação com o mar. “Gosto de tudo o que tem a ver com água, com barco. No começo dos anos 80 me dei ao luxo de comprar meu primeiro barco (à vela) e a paixão aumentou ainda mais. Depois comprei um veleiro oceânico, e daí veio a vontade de participar de regatas (foi cinco vezes campeão paulista). Nossa equipe era familiar: filhos, sobrinhos, amigos. Chegamos a ser muito bons, até que a tripulação começou a casar...”.
Dessa época dourada restou aquele desenho, como tantos outros feito a partir de uma fotografia. “Valeu enquanto durou”. O primeiro barco se chamava Lobo; o atual, de segunda-mão, é Sussurro. “Dizem que não se pode mudar o nome do barco, então coloquei neste uma imagem de lobo e todos o chamam de Sussurro do Lobo”. Hoje o arquiteto veleja por puro prazer. Um dos hobbies é o trabalho manual e, em particular, a marcenaria – presente em detalhes de projetos residenciais“. Sou muito feliz porque faço realmente o que gosto – não que eu goste das bordoadas do meio em que estou, pois não é brincadeira trabalhar com as maiores construtoras do país. Mas adoro projetar”.
Roberto Candusso se considera um chefe “humano, sem dúvida, compreensivo e bastante tranqüilo”. “Reconheço o direito que as pessoas têm de errar, mas quanto à criação, acho que sou meio déspota, agressivo. Tento dar chance, mas se não sair...”. Esse homem forte é o mesmo que se emociona ao ouvir uma ópera – ou a nos emocionar com seu talento para o desenho livre.
Quando o assunto é a paixão pela cidade, o arquiteto tenta não propor regras ou soluções simplistas para as áreas centrais, muito degradadas. “Não acredito em intervenções forçadas, só nas espontâneas. Em 2000 ele comprou um apartamento de 400 m² por R$ 550 mil (R$ 1.375,00 o m²). Um morador que era engenheiro calculista sugeriu mudar a fachada do prédio, toda chapada, de 30 anos atrás, enquanto o arquiteto propôs a inclusão de algumas sacadas.
 
 
O processo foi demorado e complicado, pois uma obra dessas depende de 100% de aprovação dos condôminos. Atualmente o apartamento vale R$ 3 milhões. “Não adianta abandonar um bairro velho e procurar outro, e mais outro, depois outro... Até parece índio, que quando esgota a terra, põe fogo na taba e vai para outra mais fértil. Já passamos dessa fase de abandonar o que foi usado. O centro de São Paulo é tão lindo... acredito em reformar e recuperar seus edifícios”. A conclusão vem de quem entende do assunto: Se as pessoas perceberem que, investindo, valorizam seu patrimônio, teremos uma verdadeira renovação do centro das cidade, como acontece com o resto do mundo”.
 
 
Ficha técnica
- Arquiteto: Frank Lloyd Whigt.
- Designer: Giuseppe Pinin Farina (fundador do Studio Pininfarina, responsável por todos os desenhos de - carroçarias da Ferrari desde a década de 50).
- Cidade: São Francisco (EUA).
- Restaurante: A casa da mamma, mesmo...
- Prato: Qualquer coisa com berinjela.
- Música: La Boheme.
- Frase nunca dita: “Quero-lhe mal”.
- Desejo secreto: Pô, vai deixar de ser...
- Fantasia: Nada, sou muito pé no chão.
 
 
NOTICIAS | CANDUSSO ARQUITETOS
January 1, 2007