Falha, Forma e Repetição: o Elogio do Erro Manipulado na obra de Otto Sulzbach / BIANCA KNAAK
A produção artística de Otto Sulzbach namora com o design. Com uma intimidade apaixonada seu trabalho conversa, questiona, implica e se relaciona com os valores fundantes do design, ou aquilo que se convencionou chamar design: a justa adequação das formas à funcionalidade dos objetos. A concepção escultórica de suas peças se vale dessa relação, sem se impor ou filiar-se a esta ou aquela categoria tridimensional. A espacialidade que elas almejam não se fecha numa essencialidade formal destacada por alguma unidade compositiva. O que há de escultórico nos trabalhos de Otto se refere ao que há de design na escultura, ao que há de escultórico no design, ao que há de arquitetônico na escultura, ao que há de escultórico na arquitetura, constante e imbricadamente. Num diálogo estabelecido a partir de um conjunto de associações que chamam a atenção para um fluxo, uma possível continuidade, uma não interrupção do espaço desses trabalhos com o que está logo a seguir nos campos por onde instala.
A cumplicidade do artista com a linha e a forma, com o desenho total do objeto em plena materialidade plástica, sugere alguma sensualidade e muitas sutilezas. É, na verdade, um elogio à pureza das formas em imediata subversão à função utilitária dos seus propósitos. Através de seu trabalho Otto pode fazer coro ao que costumava dizer o poeta Leminski: “a arte é um inutensílio” pois, a função da obra se esgota na própria existência, na instauração artística de cada objeto concebido. Estratégia que, em sua obra, força os limites de uma funcionalidade normativa que as associações mencionadas acima podem sugerir e não se fixam em territórios pré-estabelecidos.
O aspecto seriado da produção em larga escala da indústria contemporânea é o ponto de partida da poética deste artista. No entanto as obras de Sulzbach são exercícios estéticos que brotam, materialmente, enquanto produção artística, na contramão dos objetivos industriais. Seus objetos têm como matéria prima o rejeito, as sobras, as farpas, o excedente desperdiçado da indústria de borracha automotiva, inspirando desafio à sensibilidade do artista.
Numa operação análoga ao sistema industrial, as obras de Sulzbach são replicáveis, múltiplas, multiplicáveis e, na maioria das vezes, oriundas de uma única matriz formal.Que por isso mesmo mantém, na manipulação artística, os mesmos negros e pardos tons do material recolhido. Assim, considerando-se o suporte das obras de Otto, podemos afirmar que a racionalidade da indústria é parte do seu processo de trabalho. Porém, neste caso, o processo se inicia a partir do colapso, da falha incontrolável na lógica da mecânica industrial e o artista se vale justamente disso. Trabalha com o material que sobra na fôrma que dará configuração ao produto pretendido e também com aqueles produtos que falharam em suas exigências funcionais, tornando-se assim refugo, rejeito a ser descartado pelo controle de qualidade.
Otto trabalha o design pelo avesso. Uma atividade para a qual, marotamente, me permite nomear o artista como designer do erro sistêmico. Há nesse processo um certo humor refinado que acompanha a leveza de suas formas escultóricas, que partem de uma unidade quase miniaturizada e seguem um gesto ‘quase’ lúdico que permite seu desenvolvimento orgânico, crescente, contínuo, que pode, pela repetição, chegar ao gigantismo ou invocar o infinito.
Desde 2001, quando iniciou a pesquisa de materiais sob o aprofundamento artístico, Otto se incomodava com a poluição visual típica de nossos tempos, emblemática dos grandes centros urbanos. O excesso de informação visual impeliu-o a uma vocação estética depuradora. Objetivava com essas pesquisas uma reflexão plástica que partisse de formas puras, simples, limpas e de poucos estímulos, valorizando a materialidade gerativa de suas obras, para além do suporte artístico. Um pouco como se professasse uma gestualidade austera que, ao mesmo tempo, fizesse elogio à sensualidade dessas formas em função de um jogo óptico que funde espaços e coisas, sem comprometer a nitidez e a presença forte dessas esculturas. Para tanto, a cor de suas peças nunca é acessória, pelo contrário é igualmente fundante em sua regularidade original e aparentemente aleatória, ainda que circunstancial. A cor do material empregado contribui, dando à expansão e ao humor dessas formas um tom que também é grave.
Por esse motivo, na economia das formas inaugurais, quase protótipos modulares, há também uma preocupação ecológica, algo romântica, não engajada, mas muito sincera que, recuperando manualmente os resíduos inorgânicos, como o poliuretano, minimiza os rejeitos que se acumulam em lixões por aí.
Mesmo trabalhando com fragmentos, pedaços, retalhos irregulares o artista consegue produzir obras de grandes dimensões, potencialmente monumentais e ainda assim em proporção e escala humana, o que acentua o apelo tátil e interativo de seus objetos. E, nessa transformação material, que se dá, basicamente, pelo acúmulo e manipulação, o trabalho deixa para trás o pragmatismo social e ecológico da reciclagem e se torna inteira e originalmente artístico, com toda a carga simbólica desse conceito estético.
São objetos de borracha nobre de uso automotivo sendo esferas pesadas ou leves, elos continuados, fios suspensos, cabos esticados, redes espiraladas, cones costurados, teias de borracha ou composições sugerindo formas orgânicas, tudo em aparente indiferença seriada. São propostas que se impõem no espaço alucinado pelas imagens do mundo contemporâneo e enquanto objetos pedem ou repelem o toque. Em conjunto, esses objetos criam pausas de sossego para o olho ao mesmo tempo em que saturam o olhar escrutinador. Uns mais que os outros, é verdade, mas todos exigem um olhar mais atento e próximo para se revelarem universos oníricos em campos de visão de negros densos e silêncios íntimos.
Bianca Knaak, curadora e crítica de arte.
Santa Maria, 2006. Janeiro Tórrido