Metáforas do Corpo, Tensões Orgânicas / ANGÉLICA DE MORAES
 
A primeira vez que vi um trabalho de Otto Sulzbach, levei um susto. Excelente. Como é que, até aquele momento, eu não sabia da existência desse autor? Afinal, ele apresentava propostas maduras, bem estruturadas, pressupondo longa trajetória. Provava estar absolutamente seguro no uso do espaço e na exploração das possibilidades expressivas do material empregado.
 
Gaúcha radicada há mais de duas décadas em São Paulo, eu imaginava nunca ter perdido o contato com os (muitos e bons) artistas que surgiram nesse período no Rio Grande do Sul. Meus mapeamentos freqüentes, porém, nunca tinham esbarrado em Otto. Como isso era possível? Simples: aquela mostra, que eu entendia resultante de longo percurso, era na verdade a primeira individual. Tão sólida e bem resolvida que fazia imaginar artista veterano.
 
Nessa primeira obra que vi de Otto – uma instalação realizada para o Centro Cultural Mario Quintana, em 2004 – era evidente a articulação eficaz com o local expositivo. Era, a rigor, instalação site specific, diálogo inteligente com as informações arquitetônicas do local. A trama geométrica das hastes de metal branco da estrutura de sustentação do teto do Centro ganharam o contraponto de uma urdidura flexível, orgânica, multiplicada em negativo, realizada por Otto com fios de borracha negra, tensionados até o chão branco por pesadas esferas, também de borracha negra. Algo como pontos de fuga de uma perspectiva ampliada, panóptica, espelhada na superfície lustrosa do solo. Trama gráfica de achuras e pontos arrancados do papel para o espaço tridimensional e que invadiam, por rebatimento, uma quarta dimensão virtual. Épuras contemporâneas.
 
Os acasos da vida me levam, agora, a testemunhar outro momento importante na trajetória de Otto: sua primeira individual no Rio de Janeiro. Desta vez, pensei, não vou ter surpresas porque já sei da potencialidade do autor. A surpresa será apenas do público carioca. Mas Otto voltou a me surpreender. Embora continue ancorado com vigor e acerto no mesmo material emblemático de sua primeira mostra solo em Porto Alegre, houve nesses dois anos decorridos a conquista de refinamento e complexidade ainda maiores no uso de resíduos de borracha automotiva. No uso dessas banais sobras da industrialização de autopeças, que o artista nos faz ver como podem ser ou se tornarem sedutoras.
 
Otto está em um segundo e importante momento de exploração das qualidades desse material. Antes, o que lhe interessava era o jogo de tensões proporcionado pela elasticidade e peso da borracha, fosca ou brilhante. Agora seu trabalho se descola do arquitetônico e do jogo de tensões. É o objeto concentrado nele mesmo, simultaneamente puro significante e puro significado. Inteireza que se basta. Inteireza feita de infinitos módulos articulados: ora escamas formando cordas, ora delicados rendilhados. Padronagens planares que lembram crochê. Estas, memória persistente da avó alemã.
 
É surpreendente saber que Otto não desenha seus trabalhos antes de realizá-los. São de natureza tão gráfica – até pela renúncia total ao uso da cor – de formas tão exatas e desdobramentos tão rigorosos na obediência a uma lógica interna, que parecem saltar de uma prancheta de projeto. Mas o ex-estudante de arquitetura e design garante: as formas se fazem fazendo-as. É no manuseio e no jogo tátil com a borracha que Otto intui o devir do que ela propõe. Algo que remete a índices orgânicos, músculos estirados, corpos distendidos no limite das fibras, em ação e reação. Índices eloqüentes do orgânico, ora epidermes, ora órgãos, semantizados pela coleção, pelo acúmulo, pelas pontas/pêlos. Enfim, coisas de um maduro jovem artista.
 
Angélica de Moraes é crítica de artes visuais e jornalista cultural, doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP                                                                        
Falha, Forma e Repetição: o Elogio do Erro Manipulado na obra de Otto Sulzbach / BIANCA KNAAK
 
A produção artística de Otto Sulzbach namora com o design. Com uma intimidade apaixonada seu trabalho conversa, questiona, implica e se relaciona com os valores fundantes do design, ou aquilo que se convencionou chamar design: a justa adequação das formas à funcionalidade dos objetos. A concepção escultórica de suas peças se vale dessa relação, sem se impor ou filiar-se a esta ou aquela categoria tridimensional. A espacialidade que elas almejam não se fecha numa essencialidade formal destacada por alguma unidade compositiva. O que há de escultórico nos trabalhos de Otto se refere ao que há de design na escultura, ao que há de escultórico no design, ao que há de arquitetônico na escultura, ao que há de escultórico na arquitetura, constante e imbricadamente. Num diálogo estabelecido a partir de um conjunto de associações que chamam a atenção para um fluxo, uma possível continuidade, uma não interrupção do espaço desses trabalhos com o que está logo a seguir nos campos por onde instala.
 
A cumplicidade do artista com a linha e a forma, com o desenho total do objeto em plena materialidade plástica, sugere alguma sensualidade e muitas sutilezas. É, na verdade, um elogio à pureza das formas em imediata subversão à função utilitária dos seus propósitos. Através de seu trabalho Otto pode fazer coro ao que costumava dizer o poeta Leminski: “a arte é um inutensílio” pois, a função da obra se esgota na própria existência, na instauração artística de cada objeto concebido. Estratégia que, em sua obra, força os limites de uma funcionalidade normativa que as associações mencionadas acima podem sugerir e não se fixam em territórios pré-estabelecidos.
 
O aspecto seriado da produção em larga escala da indústria contemporânea é o ponto de partida da poética deste artista. No entanto as obras de Sulzbach são exercícios estéticos que brotam, materialmente, enquanto produção artística, na contramão dos objetivos industriais. Seus objetos têm como matéria prima o rejeito, as sobras, as farpas, o excedente desperdiçado da indústria de borracha automotiva, inspirando desafio à sensibilidade do artista.
 
Numa operação análoga ao sistema industrial, as obras de Sulzbach são replicáveis, múltiplas, multiplicáveis e, na maioria das vezes, oriundas de uma única matriz formal.Que por isso mesmo mantém, na manipulação artística, os mesmos negros e pardos tons do material recolhido. Assim, considerando-se o suporte das obras de Otto, podemos afirmar que a racionalidade da indústria é parte do seu processo de trabalho. Porém, neste caso, o processo se inicia a partir do colapso, da falha incontrolável na lógica da mecânica industrial e o artista se vale justamente disso. Trabalha com o material que sobra na fôrma que dará configuração ao produto pretendido e também com aqueles produtos que falharam em suas exigências funcionais, tornando-se assim refugo, rejeito a ser descartado pelo controle de qualidade.
 
Otto trabalha o design pelo avesso. Uma atividade para a qual, marotamente, me permite nomear o artista como designer do erro sistêmico. Há nesse processo um certo humor refinado que acompanha a leveza de suas formas escultóricas, que partem de uma unidade quase miniaturizada e seguem um gesto ‘quase’ lúdico que permite seu desenvolvimento orgânico, crescente, contínuo, que pode, pela repetição, chegar ao gigantismo ou invocar o infinito.
 
Desde 2001, quando iniciou a pesquisa de materiais sob o aprofundamento artístico, Otto se incomodava com a poluição visual típica de nossos tempos, emblemática dos grandes centros urbanos. O excesso de informação visual impeliu-o a uma vocação estética depuradora. Objetivava com essas pesquisas uma reflexão plástica que partisse de formas puras, simples, limpas e de poucos estímulos, valorizando a materialidade gerativa de suas obras, para além do suporte artístico. Um pouco como se professasse uma gestualidade austera que, ao mesmo tempo, fizesse elogio à sensualidade dessas formas em função de um jogo óptico que funde espaços e coisas, sem comprometer a nitidez e a presença forte dessas esculturas. Para tanto, a cor de suas peças nunca é acessória, pelo contrário é igualmente fundante em sua regularidade original e aparentemente aleatória, ainda que circunstancial. A cor do material empregado contribui, dando à expansão e ao humor dessas formas um tom que também é grave.
 
Por esse motivo, na economia das formas inaugurais, quase protótipos modulares, há também uma preocupação ecológica, algo romântica, não engajada, mas muito sincera que, recuperando manualmente os resíduos inorgânicos, como o poliuretano, minimiza os rejeitos que se acumulam em lixões por aí.
 
Mesmo trabalhando com fragmentos, pedaços, retalhos irregulares o artista consegue produzir obras de grandes dimensões, potencialmente monumentais e ainda assim em proporção e escala humana, o que acentua o apelo tátil e interativo de seus objetos. E, nessa transformação material, que se dá, basicamente, pelo acúmulo e manipulação, o trabalho deixa para trás o pragmatismo social e ecológico da reciclagem e se torna inteira e originalmente artístico, com toda a carga simbólica desse conceito estético.
 
São objetos de borracha nobre de uso automotivo sendo esferas pesadas ou leves, elos continuados, fios suspensos, cabos esticados, redes espiraladas, cones costurados, teias de borracha ou composições sugerindo formas orgânicas, tudo em aparente indiferença seriada. São propostas que se impõem no espaço alucinado pelas imagens do mundo contemporâneo e enquanto objetos pedem ou repelem o toque. Em conjunto, esses objetos criam pausas de sossego para o olho ao mesmo tempo em que saturam o olhar escrutinador. Uns mais que os outros, é verdade, mas todos exigem um olhar mais atento e próximo para se revelarem universos oníricos em campos de visão de negros densos e silêncios íntimos.
 
Bianca Knaak, curadora e crítica de arte.
Santa Maria, 2006. Janeiro Tórrido
Arte Minimalista de Otto Sulzbach / CARLOS SALGADO
 
Há um encontro de segredos variados nos pequenos e sutis elementos caso eles sejam regidos por mãos certeiras, acabam por compor uma concretude chamada Arte.  As mãos de Otto executam em silêncio as artes de seu cérebro. Há técnica e carinho pelos materiais, uma intimidade sem par.  É-lhe difícil dividir o processo, mas entrega o produto com generosidade, por vezes, efervescente, mas sempre em profundo silêncio reverente.  Os materiais de Otto são em especial os metais. São arrancados de suas formas inertes para funções frágeis e instáveis, sujeitas a um processo de contínuo agregar de novas perspectivas. Otto Sulzbach constrói processos, eles são coerentes com a natureza atômica de seus materiais. Vibram silenciosamente, microscopicamente. O mínimo é transcrito em excesso de atenção. Repito: Otto tem especial carinho pelos seus materiais, isto garante - lhe um processo surdo, mas eloqüente ao final. Tudo se ajusta em harmonias paradoxais, móveis e rígidas a um tempo. Tudo num paradoxo sem freios e lucidez extremados. Otto entrega-nos sua arte em lâminas, pinos, perfis alongados, rodas e em, especial a surpreendente acolhida da luz como elemento mecânico e fugaz.  Creio que a luz lhe seja própria e não tomada de empréstimo.  Por isso, Otto Sulzbach amplia-se sem parar à velocidade da luz ao encontrar-se com seus materiais. Tudo parece desde já definitivo e inapreensível, a não ser com a luz dos olhos bem abertos de todos nós.
 
Porto Alegre, 2002
 
Carlos Salgado é psiquiatra e colecionador de arte.